Mallu mulher
A transformação de Maria Luiza, a adolescente que era o patinho feio da classe, em Mallu Magalhães, o maior fenômeno pop recente da música nacional
Experimente estender a mão a Mallu Magalhães. Você receberá um abraço. E apertado.– Mallu não dá meio abraço – define Kadu Abecassis, guitarrista que acompanha a cantora. A meiguice ao cubo da paulistana é provavelmente o traço de sua personalidade que mais conquista fãs e detratores. Há quem se derreta. Há quem se irrite com ela e, principalmente, com os que se derretem por ela. Aos 16 anos, Mallu é assunto nacional, presença constante na televisão e nos sites de fofoca. Tudo isso sem praticamente abrir a boca, a não ser para cantar. Sua música também se tornou secundária diante do fenômeno ao redor de sua personalidade.
Prova disso foram os milhares que se aglomeraram ao redor de um dos palcos do Planeta Atlântida Santa Catarina, em que ela se apresentou, no último dia 17 (o próximo show será realizado no sábado, 7, no Palco Voador, em Atlântida). Do público, não se ouvia um pio, nem um mexer de lábios. As canções de seu CD de estreia – algumas delas hits como Tchubaruba e J1 – não são exatamente conhecidas. Quem estava diante do palco queria ver quem é a tal garota prodígio que não sai da mídia. Quem estava nos bastidores garante que Mallu já não é mais a mesma de apenas um ano atrás, quando começou a ser assunto como “a garota que canta em inglês e fez sucesso sozinha na Internet”.
Um ano depois, só o que permanece é a paixão por chás – o verde da FeelGood e o Ice-T preto com limão da Lipton não faltam no camarim – e o medo de avião, que lhe rendeu uma rouquidão durante o show em Santa Catarina.
– Por causa do medo de avião, a cada viagem acontece alguma coisa. Dessa vez fiquei meio sem voz – explicou a garota.
De resto, parece mais ousada em tudo, das roupas levemente curtas – ainda que num grau comedido – ao discurso cada vez mais inflamado contra a escola. O Ensino Médio, que outrora apenas atrapalhava Mallu durante as viagens para cantar pelo país, agora parece ter se convertido num dos poucos vilões a lhe ferver o sangue:
– Claramente a escola é o meu obstáculo maior, da minha relação com a autoridade. Eu não gosto de autoridade, tudo que é autoritário é ruim – contou ela à Agência RBS. – Estão dizendo que todas as pessoas naquela sala vão ler do mesmo jeito. Cara, isso no mínimo é estúpido. A minha relação com a escola agora é de calma e aceitação.
Antigamente, na aula, ela era a Maria Luiza, a “loser”. Malu era como chamavam a outra Maria Luiza, a pop. Talvez seja por isso que agora que também virou Malu, ela tenha feito questão de incluir um L a mais para diferenciar. O fato é que, contra a escola, Mallu pode se rebelar. Contra os pais não, e isso a incomoda ainda mais.
– Seria muito mais fácil para mim se eles fossem dois crápulas. Só que não, eles me amam e querem o meu melhor. Isso de vez em quando me impede de fazer algumas coisas que eu gostaria. Por consideração – contou ela à RBS TV, nos bastidores do show.
Também por consideração, Mallu se esforça para terminar os estudos. Mudou de colégio, para ver se consegue se adaptar melhor, e pensa em, quem sabe, num futuro longínquo, transformar em faculdade o hobby de costurar em casa.
Artisticamente, a carreira de Mallu Magalhães parece correr em um universo à parte do que aparece na mídia. Na semana passada, excursionou por Portugal, se apresentando em diversas cidades.
– Passamos o tempo inteiro tendo conversas bacanas ou brincando, então as longas esperas em saguão de aeroporto são bem menos chatas com ela – conta o guitarrista.
Ao vivo, Mallu impressiona não só pela perspicácia das canções próprias, mas pela intensidade com que interpreta covers difíceis. Foi o que percebeu, em 2007, o jornalista Lúcio Ribeiro – um dos “descobridores” de Mallu.
– Essas pessoas costumam ter luz própria. A Mallu era uma molequinha tímida cantando músicas próprias com personalidade e fazendo cover de Johnny Cash. Você não costuma ver isso em garotas de 15 anos – lembra Ribeiro.
O sucesso relativo que Mallu faz, segundo o jornalista, é próprio do nosso tempo:
– A Mallu, há uns 10 anos, não passaria de uma garotinha indie. Hoje ela está em comercial de rede nacional, já foi 10 vezes na Globo. Uma vez que você dá espaço para essas pessoas com certo carisma, luz, talento, e um pouco de sorte, elas vão embora.
Um disco novo já está quase pronto, mas o futuro artístico da pirralha é difícil de prever.
– Mallu já é hoje uma pessoa bem diferente da Mallu de janeiro do ano passado. Mas tenho um pouco de medo de uma nova música dela, agora mais “experiente”, em contato com “gente da MPB”, influências los hermânicas, essas coisas... – reflete Ribeiro.
Essa conversa toda parece ser o que menos interessa ao público. É o mergulho no mundo “los hermânico” empreendido por Mallu nos últimos meses o que todos querem desvendar quando vão entrevistá-la. Mais precisamente, os detalhes sobre o namoro da garota de 16 anos com o compositor de 30, Marcelo Camelo, líder do Los Hermanos. Para fugir da saia justa, Mallu já escolheu uma tática: quando a pergunta é sobre o namoro, ela replica, sem perder a seriedade, com alguma resposta nonsense sobre flores, vestidos ou o seu amado banjo. O interlocutor percebe o recado na hora, abre aquele sorriso amarelo e então sente, de uma maneira não tão agradável, o quanto a meiguice da Mallu, a pop, pode virar a sagacidade da Maria Luiza, aquela que sentava no fundão da classe.
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